14 dezembro 2009

O amor do Pai esbanjador - Parte 1


Oseias experimentou um pouquinho em sua pele as implicações do amor consumidor de Deus. O profeta explicitou para a nação desviada e indiferente a intensidade do coração do Esposo Amante (Deus), Aquele que se dignou tomar para si uma mulher de prostituições (Israel) e levar a cabo Sua ‘loucura’ de cuidar de uma prole alheia, fruto de alianças ilegítimas dessa esposa. “Curarei a sua infidelidade, eu de mim mesmo os amarei” (Os 14.4). 

O vocabulário divino é acentuadamente passional, assemelha-se aos suspiros desesperados de um marido traído e ainda mais apaixonado, que crê no ardor e pureza do seu amor como remédio para a frieza e as traições reiteradas daquela a quem esposou: “Portanto, eis que eu a atrairei, e a levarei para o deserto, e lhe falarei ao coração” (Os 2.14); “Desposar- te-ei comigo para sempre...” (v.19); “Comprei-a, pois, para mim...” (3.2); “... tu esperarás por mim muitos dias; não te prostituirás, nem serás de outro homem; assim também eu esperarei por ti” (v.3). Eis o amor abrasador do Marido.

Com uma outra ênfase, porém de igual intensidade, o Novo Testamento nos revela um Pai quebrantado, cujo amor é grande e verdadeiro o bastante para não tentar impor-se pela força, alegando os direitos da autoridade, inclusive a que se consolida pelo acúmulo financeiro e pode, se quiser, chantagear os que dela dependem. Mesmo desrespeitado, esse Pai deixa partir. Ele sabe que se o amor não der jeito, nada mais poderá fazê-lo. A espera é dolorida, no entanto apaixonada.

Os olhos estão sempre fixos no horizonte. Qualquer movimentação incomum pode estar trazendo novidade. Anos mais tarde, o filho vem. Maltrapilho e arrependido, disposto a oferecer, agora como empregado, seus préstimos ao Pai em troca de comida e pouso, arrisca frases prontas e de efeito, cada qual carregando o desconhecimento da magnanimidade que o aguarda. O Pai, sim, é que se mostra pródigo. E como! Ele esbanja todos os seus favores
para receber o filho que volta. Tanta compaixão e generosidade encabulam o rapaz.Suas juras de fidelidade a quem ele decidiu agora servir como a um patrão são pulverizadas por perdão tão incompreensível, humanamente descabido, fora de propósito, estranho a qualquer lógica digna desse nome aqui debaixo do sol. O filho voltou. Pronto. Seguem as comemorações, homenagens, cuidados, demonstrações efusivas de alegria.

O amor é tão sincero e humilde, portanto amor de fato, que faz o que retorna se sentir em casa, e filho de verdade, mesmo a despeito de suas intenções iniciais. Eis o amor do Pai. Não importa se como Marido, não importa se como Pai, Deus é amor. Todas as suas deliberações trazem este selo primordial. Sua natureza fá-lo amar por toda a eternidade, sem conseguir amar menos um segundo sequer. Inclusive, esse amor, cuja origem está na comunidade trinitária perfeita e eterna, é a fonte da vida espiritual de Jesus.

Tudo o que o vemos fazendo no Novo Testamento foi feito neste Espírito de amor. Henri Nouwen, no ótimo “Espaço para Deus”, assim o descreve: “Este amor inexaurível entre o Pai e o Filho inclui e até transcende todas as formas de amor que conhecemos, inclui o amor de pai e mãe, irmão e irmã, esposo e esposa, professor e amigo. Mas também vai muito além das muitas limitadas e limitantes experiências humanas de amor que conhecemos. É um amor que cuida mas exige. É um amor sustentador mas severo. É um amor suave mas forte. É um amor que dá vida mas aceita a morte. Neste divino amor  Jesus foi enviado ao mundo, e por este divino amor Jesus se ofereceu na cruz.

Este amor envolvente, que sintetiza o relacionamento entre o Pai e o Filho, é uma Pessoa divina, coigual com o Pai e o Filho. Tem um nome pessoal. É chamado Espírito Santo. O Pai ama o Filho e se derrama no Filho. O Filho é amado pelo Pai e devolve tudo que ele é ao Pai. O Espírito é o próprio amor em si, eternamente envolvendo o Pai e o Filho”.

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Exemplar de Grupo News

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